Historiadora diz que ‘Maradona foi o oposto da mercantilização do futebol’
Diego Armando Maradona foi uma lenda dentro e fora dos campos. O esportista, morto nesta quarta-feira, aos 60 anos, notabilizou-se tanto pelos dribles quanto pelas polêmicas. Para Lívia Gonçalves Magalhães, professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense e autora do livro “Histórias do Futebol” (Arquivo Público de São Paulo), o eterno Camisa 10 da Argentina deve sua importância histórica e fama também pela personalidade destemida e sua vida política intensa. Sem medo de se posicionar, Maradona criou um vínculo com o povo latino-americano ao assumir e encarnar os valores do continente, explica a historiadora, em entrevista por telefone.
Maradona é visto como um Deus na Argentina e no mundo não apenas pelo que fez em campo. Como a personalidade influenciou na construção do mito?
É até difícil para nós brasileiros estudarmos e entendermos, porque é uma idolatria diferente que temos com nossos ídolos. O fascínio tem muito a ver com o lado humano do ídolo. Ele fez gols incríveis, era um craque, mas vai além. Tem a ver com a experiência de vida passional que ele teve. O Maradona erra, o Maradona ficou doente, lidou publicamente com a questão do vício, se opôs à Fifa… Nós nos enxergamos nesse lado humano dele, nos identificamos quando o vemos chorando ou expondo sua fragilidade. Ele é emoção.
Uma emoção que parece cada vez mais distante do futebol moderno…
O Maradona é o oposto da mercantilização que se vê no futebol. O oposto do público sentado nas cadeiras, do torcedor mais preocupado com a selfie, toda essa lógica da arena. Na repercussão internacional da sua morte, inclusive no Brasil, percebe-se como ele simboliza e resgata um futebol de paixão.
Como define o Maradona político?
O Maradona trazia essa política mais clássica. Nos anos 1990, época em que o liberalismo falava em fim das ideologias, ele vai manter uma concepção de política que se baseia na participação do povo, e não apenas de uma elite. Para ele, política é o chão da fábrica, o campo de terra, é estar nas comunidades… Maradona bate de frente com federações esportivas e governos. Em 1995, quando a Cúpula das Américas foi em Mar del Plata, ele subiu no palanque para se posicionar contra os Estados Unidos, ao lado do Fidel Castro. A maneira como ele se coloca a favor do popular, ou do que ele entende como popular, tem uma repercussão importante na sua imagem.
Maradona encarnava um espírito latino-americano em tudo que fazia. Qual a importância do continente para ele?
Na rivalidade entre a Europa e a América Latina, ele vai valorizar não apenas o futebol da América Latina, como o também o ser latino-americano. Com ele não há separação entre o que há em campo e o cotidiano, o estilo de vida do seu continente. Não podemos deixar de lembrar que estamos falando de uma América do Sul em crise econômica profunda, principalmente nos anos 1980, com alguns países saindo de décadas de regimes autoritários.
Com isso, ajudou na auto-estima latino-americana?
Em um contexto de muita desesperança, ele vai mostrar que temos muitas coisas do que nos orgulhar, vai nos colocar para cima e nos defender.
O Maradona passional, humano, também podia errar na política, apoiando regimes autoritários, por exemplo. Como ele lidava com esse tipo de cobrança?
O questionamento não o levava a tentar relativizar ou justificar. Ao contrário, fazia-o reforçar. Ele nunca teve medo da polêmica em suas escolhas e posicionamentos. Tanto que rompeu com essa cobrança de que jogador não tem que se envolver com política. Ele não é um pêndulo, que fica indo de um lado para o outro de acordo com interesses pessoais. Ele tem um pensamento e o mantém. Maradona era muito verdadeiro.
O posicionamento político do ídolo o afastou dos fãs com ideologias diferentes?
Tenho amigos argentinos que politicamente eram de lados opostos ao dele e que hoje não apenas estão lamentando sua morte como valorizando a sua autenticidade e capacidade de se posicionar.
